Ainda não entendi porque todas as piadas de sogra são feitas para homens. Ou pelo menos as mais conhecidas. Até onde eu sei, ou melhor, desde quando fiquei noiva, tenho todos os motivos do mundo para acreditar que não há ser desumano pior do que aquela que colocou seu futuro marido no mundo. Não, eu não sou a Cristiane F., 13 anos, drogada e prostituída. Longe disso. Estou muito mais para Marcela C., 28 anos, batalhadora, inteligente, independente e bem sucedida. Quer dizer, bem sucedida já não sei, pois nessa batalha louca contra a possessividade não me animo nem um pouco em lutar pela vitória.Já dei sorrisos, presentes, flores, distribuí simpatia. Já convidei para almoçar, jantar, conversar, comemorar aniversário. Já mostrei todas as minhas faces, forças e fraquezas. Já pedi ajuda, já pedi respeito e compreensão. Mas nem um “não” eu recebi. Acho que daria trabalho demais. Do lado de lá, só recebo mesmo o frio do pólo norte. E juro que andaria até lá para entender as razões de sentimentos tão feios. Sentimentos que colocam à mostra o que há de pior em mim, afinal, não há anjo que suporte permanecer tempo demais adormecido.
Faltam 11 dias. A mistura de sentimentos é inexplicável. Ansiedade, nervosismo, felicidade, medo, expectativa, frio na barriga e raiva. Raiva? Peraí, volta a fita. Esse não era para figurar no meu liquidificador de emoções. Pois é, mas ele está aí. De repente junta-se tudo, a ausência em todos os aniversários, a falta de uma lembrancinha se quer durante os Natais, a desculpa esfarrapada para não comparecer ao chá de panela e a eterna espera pela pergunta “Você precisa de alguma ajuda para o casamento?” que nunca veio.
Já gritei, já berrei, agora era hora de escrever. Pronto, esse fantasma já não me pertence mais. Exorcizei. Vou chamar Buda, Dalai Lama, Papai Papai Noel e até o Coelhinho da Páscoa. Mas prometo não parar de sorrir. Descobri o meu maior escudo. E nesse aqui, não tem tempo ruim. Muito menos frio!


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